Éris e Loki, o casamento demiúrgico

Caosboro

Desde a cristianização da consciência humana, o caos é mal interpretado, levado a todos como um sinônimo de bagunça, balbúrdia, ou qualquer outra palavra que nos leve a lembrar de algo desastroso. De fato temos a deusa Éris como a deusa do Caos, e atrelado ao caos temos suas consequências, que apesar de serem imprevisíveis, grande parte das consequências não são agradáveis (ou melhor, as que damos mais atenção nunca são agradáveis), e é nesses frutos que podemos dizer que o grande Loki habita.

Vamos falar primeiro de um de cada vez, e depois eu conto sobre esse casamento lindo.

O caos é realmente incompreendido, porque apesar do ser humano ser capaz de produzir incontáveis formas de pensar sobre o mesmo assunto, ele parece ter um fetiche grande por engessar o pensamento e limitar qualquer capacidade de produzir algo que não seja a habilidade de reproduzir aquilo que é dito sem que o que foi dito seja digerido por si. Crescemos ouvindo e lendo que o caos é algo ruim, pelo simples fato de bossais que nos antecederam sempre utilizaram apenas essa palavra para falar de algo bagunçado e desastroso (como Ovídio, havia atribuído esses adjetivos à divindade Caos), parecendo que tinham o prazer de castrar seu próprio vocabulário.

Uma das interpretações do significado que levo para a minha vida e não só para a minha vida no âmbito pessoal, mas na própria interpretação do caos ao qual Éris representa, é a teoria comprovada de que caos é uma força externa que penetra em um padrão de certa forma organizado, desordenando tal ordem e gerando a necessidade de nova organização, gerando trabalho e o trabalho gerando energia, como todo bom “motor”.

Eis o papel de Éris, tornar aquilo que está estagnado e causar eventos que façam com que a mudança seja necessária para que algo se torne correto de acordo com a necessidade de quem promove o primeiro padrão, afinal de contas podemos pensar pela seguinte vertente: Em nossas vidas costumamos estagnar o que acreditamos ser bom, mas no fim das contas apenas é mais cômodo. O que é cômodo costuma ter prazo de validade, e quem bate em nossa porta pra nos lembrar que está na hora de mudar é a deusa Éris, que realmente não nos ajuda a notar que o prazo esta esgotado, mas a partir do momento que notamos a necessidade, é ela que se torna o grande motor que converte caos em energia e a energia nós convertemos em força de trabalho para a realização da alteração do padrão que antes era cômodo porém nos estagnava.

Como mago do caos digo tudo isso com propriedade, porque na magia do caos o que mais fazemos é usar a energia do próprio caos como combustível para a realização de nossa vontade. A capacidade de andar entre dogmas, quebra-los e utilizarmos o melhor de cada crença, doutrina e religião com grande maestria, ou ainda que envoltos em problemas para inter-relaciona-los por serem crenças divergentes é justamente a capacidade de pegar todo esse caos e fazer com que tudo se torne ordem na nossa cabeça sem que se torne um padrão. Melhor dizendo, tornar o caos e a imprevisibilidade um padrão para a realização da nossa Verdade Vontade.

Assim como necessitamos de algo que nos desperte para converter o caos em ordem, temos também aquilo que nos leva ao caos, a força prima que penetra no padrão e trás a necessidade da reorganização, a força que bate em nossa porta para avisar que o que esta estagnado já passou do seu prazo de validade e que algo é necessário que deva ser feito.

Esse é Loki, nosso deus “brincalhão”, tão mal interpretado quanto todo o caos que lhe serve como berço. Loki, o deus do fogo, aquele que pode ser ouvido no estalar da lenha em uma boa fogueira (partindo do principio que o conceito de bom, assim como mau são pontos de vista), sempre aparece fazendo alguma travessura ou forjando uma cena que trás incomodo com grandiosas consequências abertas à interpretação. Sempre que Loki aparece, logo após a resolução ou desistência do problema trazido por ele, alguém aprende algo, algo acontece e um lição é dada.

Loki trabalha com o incômodo, com a ação que nos tira da zona de conforto e com a amoralidade, isso mesmo, significa que ele vida à margem da moral humana. Esse sábio deus chamado Loki nos leva à iluminação necessária manifestando sua força da forma como melhor nos atinge. Nós humanos somos seres preguiçosos e de fácil imobilidade quando encontramos o menor sinal de conforto, e lhes mostro que não é mentira!

Numa sociedade capitalista e de terceiro mundo como a que vivemos no Brasil, dificilmente você vai ver alguém da “classe c” que conseguiu o mínimo de conforto e honra pelas posses que tem querer investir o pouco dinheiro que consegue em algo que não seja material e na maioria das vezes passivo de ostentação. O campo da biologia também nos mostra isso através da comparação de duas plantas, uma nativa da mata atlântica e outra nativa da caatinga nordestina, onde vamos que a rais das plantas da mata atlântica pouco se estendem pelas profundezas do solo ao menor sinal de umidade, enquanto a planta da caatinga por conta da pouca existência de água em seu solo apenas para de aprofundar suas raízes ao fim de sua “vida útil”.

O casamento demiúrgico, ouroboro caótico, 0=22 cômico

A união que faço em meu panteão entre Éris e Loki não poderia ser melhor em meu ponto de vista, ou pelo menos me cabem muito bem até a próxima mudança de ponto de vista que sempre estou passivo a receber.

No inicio temos a zona de conforto, e tudo é ordem, após isso vem o caos e se vê necessário para modificar as coisas e levar a ordem a uma elevação. Nesse momento Loki vem e bate à porta, inventando eventos que poderão não ser tão bem vistos, mas como disse anteriormente, as divindades que trabalham com o caos são amorais, e farão o necessário para que sua missão seja realizada com sucesso. A atitude de Loki lhe incomodará até que algo seja feito, mesmo que o que seja feito de sua parte seja a desistência ou a resistência para se manter como está. A partir desse momento você se vê no meio de um acontecimento que não lhe é confortável e resolve fazer algo para que aconteça a mudança e para que seja alcançada novamente a ordem. Este é o instante que Éris aparece e pega todo o caos reconhecido por você como necessitado de mudança/ordem, e transforma em energia, para que seja aplicada da forma como quiser para alcançar a ordem necessária.

Esse é um ciclo sem fim, a zona de conforto sempre será visitada por esse casal que beneficamente nos traz todo o aparato para a evolução, seja ela moral, intelectual, espiritual ou etc… Esse é o inicio e o fim de uma jornada sem término, onde é melhor aproveitar a vista da caminhada do que a chegada ao destino.

Referências utilizadas no texto acima: Northhvergr – Prose Edda – Brodeur Trans. (em inglês) Northvegr Foundation – Sturluson, Snorri (1916) Gylfaginning, capítulo 44, Edda em prosa – Colum (1920) – Loki (É possível compreende-lo?)Morte Súbita – Loki (Verdade e essência desse deus)Morte Súbita – Infoescola, Teoria do Caos. – Brasilescola, Teoria do Caos – Clarke, Peter Bernard in: Psychology Press, Encyclopedia of New Religious Movements (2006) – Drure, Neville; Stealing Fire from Heaven: The Rise of Modern Western Magic – Spare, Austin Osman; Ethos – Magick, Livro 2, página 127 (Aleister Crowley) – Magick, Livro 4, páginas 128 e 174 (Aleister Crowley) – Liber Aleph, página 13 (Aleister Crowley) – Pequenos Ensaios em Direção à Verdade, página 76 (Aleister Crowley) – Amoralidade de Exu (Perdido em Pensamentos, Douglas Rainho) – A Ecologia, As Plantas e a Interculturalidade das Plantas, Capítulo 3 (José Eduardo Mendes Ferrão, Maria Lisete Caixinhas, Maria Cândido Liberato)